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Taylorismo jurídico: a máquina de moer advogados

Taylorismo jurídico: a máquina de moer a dignidade dos advogados

“O trabalho enobrece!” Sim, eu tenho certeza de que vocês já ouviram essa frase antes em algum momento das suas vidas.

Todos nós ouvimos…

Trabalhar é importante, não só para o crescimento pessoal como também para o crescimento intelectual, além, claro, de garantir o pão nosso de cada dia.

Quem escolhe o Direito já sabe, de plano, que terá de ler muito, estudar muito, tudo visando preparar o cérebro para complicadas empreitadas intelectuais.

Não seria exagero dizer que advogar é pensar, criar, resolver, inventar. E, por isso mesmo, advogar é lindo! Longe das amarras que envolvem um magistrado ou um membro do MP, o advogado é livre para traçar seu próprio caminho e encontrar soluções para os problemas de seus clientes.

E é isso que todo estudante de Direito pensa quando está no final do curso. Mais do que isto, o que todo jovem advogado acredita e deseja quando finalmente pega a carteira da Ordem.

Até o dia em que a realidade bate na porta.

Tomei ciência de uma história impressionante, verdadeira revelação de como a necessidade e a pressão do mercado, são capazes de transformar a beleza do exercício da advocacia em algo banal, despido de toda a lógica envolvida na profissão.

Um certo escritório do interior do estado de São Paulo, ligado ao contencioso de massa para grandes empresas, assim organizou os advogados responsáveis por esses processos:

1 – Um advogado apenas digita a competência da peça;

2 – Outro apenas a qualificação das partes;

3 – Outro fica apenas com os fatos;

4 – Outro, com a causa de pedir, e;

5 – Finalmente, o último é responsável pelos pedidos e fechamento da peça.

Não sei quantos advogados fazem parte de cada setor, mas a lógica organizacional é exatamente essa.

Para o negócio do escritório até faz sentido, considerando o universo “control-C” control-V, dos juizados especiais. Com essa verdadeira linha de produção de petições o escritório consegue lidar com um alto volume de processos, atendendo aos contratos com empresas de grande porte.

O norte-americano Frederick Taylor (1856-1915), considerado um dos pais da administração científica e um dos primeiros sistematizadores da disciplina científica da administração de empresas, ficaria orgulhoso desse modelo. O taylorismo caracteriza-se pela ênfase nas tarefas, objetivando o aumento da eficiência ao nível operacional.

Henry Ford aplicou a fundo esse conceito, seguindo à risca os princípios de padronização e simplificação de Frederick Taylor e desenvolveu outras técnicas avançadas para a época, referente aos sistemas de produção em massa ( linha de produção ) que hoje dominam amplamente a indústria.

A racionalização do trabalho dos advogados em nome de uma lógica quantitativa.

Mas, para a advocacia, isso é uma tragédia. É a “coisificação” do trabalho do advogado, que podendo ser um luthier se transformou em um batedor de carimbos.

Essas petições, claro, de qualidade técnica duvidosa, não raro descoladas da realidade do processo (e, ainda assim, em nome da jurisdição “engolidas” pelo Judiciário) fazem parte de um processo muito mais abrangente, que envolve um orçamento próprio. Empresas que colocam o jurídico (e a verba destinada a ele) em uma rubrica específica e metas de redução de custos, com cotas e gestão do custo dessa parte da operação.

A lógica do mercado (envolvendo aí a Jurisdição) emburreceu o Direito, emburreceu parcela dos advogados, além de empobrecer a ambos.

Óbvio! Os donos desse tipo de escritório não têm do que reclamar.

Pergunta-se: em quantos escritórios mais essa sistemática foi implementada? Que espécie de experiência ou desenvolvimento intelectual um profissional pode ter ao ser inserido em um modelo de negócio como este?

Com mais de 1 milhão de advogados, fica difícil para qualquer um começar a advocacia do zero e arrancar, na marra, um espaço no mercado.

É estranho ver um profissional ser apenas parte de uma engrenagem, como se fosse um robô cumprindo ordens, alimentando um sistema que sempre está de mãos dadas com a ideia de colapso, dado o volume de ações que entopem o Judiciário.

O mesmo drama se aplica aos advogados “audiencistas”, integrantes dessa lógica, que operacionalizam nas salas dos tribunais esse sistema.

Não posso, claro, ignorar as necessidades de quem precisa trabalhar. Mas, se for possível recomento que um emprego como este deve ser prontamente rejeitado. Se for possível…

Quem o aceita no fundo está vendendo o sonho da própria advocacia por apenas mil, mil e quinhentos, ou mesmo míseros dois mil reais.

Não pensa, não adquire experiência e, o pior de tudo: não passa de mão-de-obra descartável, sem maior importante, pois o que produz pode ser replicado por qualquer advogado.

Mas, enfim, o Direito está em crise, a economia do país, também, e a advocacia não está bem das pernas.

A realidade, em regra, vence as utopias.

Maurício Gieseler

Advogado em Brasília (DF), este blog é focado nas questões que envolvem o Exame Nacional da OAB, divulgando informações e matérias atualizadas, além de editoriais, artigos de opinião e manifestações que dizem respeito ao tema. Colocamos, também, a disposição de nossos visitantes provas, gabaritos, dicas, análises críticas, sugestões e orientações para quem pretende enfrentar o certame. Tudo sobre o Exame de Ordem você encontra aqui.

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